terça-feira, 8 de maio de 2012

36 Horas: o esquecimento como elemento da memória

“Ah sim. Se ele não puder lembrar, aquilo não aconteceu”. Esta frase compõe um dos diálogos do filme 36 Hours e remete a um dos elementos mais caros à História: a Memória.

36_Hours_Rod_Taylor

Entendemos como memória “uma reconstrução do passado” (BURKE, Peter. “História como memória social”. In: Variedades de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. P.70). Tradicionalmente se concebia como papel do historiador ser guardião da memória que serviria de exemplo à posteridade.

Hoje em dia os historiadores estão menos inocentes, tomaram ciência que a memória é determinada socialmente, em outras palavras, são os grupos sociais que escolhem o que é digno de ser memorável…

De volta ao filme. 36 Hours  de 1965, dirigido por George Seaton, conta a história do Major Jefferson F. Pike (James Garner), um oficial norte americano que é capturado pelos alemães. Na tentativa de se extrair informações sobre os planos das tropas estadunidenses, o oficial alemão Walter Garber (Rod Taylor) põe em prática um experimento que consiste (resumidamente) em sedar a vítima e acordá-la em um ambiente fictício em que a 2ª Guerra haveria acabado. Tratando a vítima como se estivesse com  amnésia, como se tivesse esquecido os últimos seis anos de sua vida.

A suposta lacuna na memória do Major Jeff. F. Pike fez com  que informações de guerra perdessem a importância, mas o que mais importa aqui é o artifício utilizado: a simulação do esquecimento…

Segundo Henry Rossuo o principal atributo da memória é “garantir a continuidade do tempo e permitir resistir à alteridade, ao ‘tempo que muda’, as rupturas que são o destino de toda vida humana, em suma, ela constitui – eis uma banalidade – um elemento essencial da identidade, da percepção de si e dos outros” (ROUSSO, Henry. “A memória não é maiso que era”. In: AMADO, Janaína & FERREIRA, Marieta. (Coords.). Usos e abusos de história oral. Rio de Janeiro: FGV,1998. P.94-95).

Assim como o ato de LEMBRAR, o ato de ESQUECER é um importante constituidor da memória. Retomando a fala do filme: esquecer é de certo modo tornar um acontecimento inexistente.

Ao historiador cabe, como aponta Peter Burke, se debruçar sobre dois pontos de observação da memória: estudá-la como fonte e como fenômeno histórico.

Por agora, tratemos do segundo ponto: toda memória é seletiva, o historiador deve observar os critérios de seleção, os grupos que selecionam e o que é selecionado. Sobretudo, o historiador deve estar atento à memória selecionada para ser esquecida.

Um exemplo (ou provocação): esquecer a violência da Escravidão, a ausência do povo na Proclamação da República e a participação de civis no Golpe Militar; serviria para quê? Digo, para quem?

No filme 36 Hours o que revela toda a farsa ao Major Jeff  F. Pike é a dor de um pequeno corte com papel sofrido no dedo um dia antes de ser capturado. Um corte não cicatriza, não deixa de doer de um dia para o outro.

O historiador deve agir como a dor de um corte de papel: por mais que se diga que se passou séculos ou anos, na lenta marcha dos processos históricos a dor ainda persiste para nos lembrar que os ferimentos estão longe de se cicatrizarem. Não podemos esquecer…

*IMDB do Filme: http://www.imdb.com/title/tt0057809/

terça-feira, 17 de abril de 2012

Uma manhã no Rio de Janeiro

Acordo cedo, perto das sete da manhã já estou de café tomado, corro para a praça de onde pego uma van rumo ao centro da cidade. O ar condicionado do carro me faz pensar: o carioca adora sentir frio… Enquanto penso (ou cochilo), escuto uma conversa que se sobressai no meio do burburinho do pessoal: “Por onde vamos? Grajaú tá com tiroteio, teve acidente na Linha Amarela, acho melhor pegar a pau-ferro”. Era o motorista falando com a pessoa ao lado, que imediatamente responde: “já é”.

Do meu lado duas mulheres vão conversando sobre a festa que pretendiam fazer no aniversário dos filhos, criticavam os buffets contavam ocorridos e coisas do tipo, eu só olhava no relógio e lembrava de uma aula de geografia que tive no primeiro período da graduação: ritmo, falta-me ritmo, é tudo muito novo e estranho, ainda é outro mundo.

Engraçado, o carioca que saiu do seu exílio em Minas, não se sente mais carioca, não acompanha o fluxo da Uruguaiana com a mesma normalidade das outras pessoas, ainda vigia as placas das ruas para saber aonde é a Ouvidor e quando a visão daquela ruela se abre para o Largo do São Francisco, exatamente uma hora e meia depois (quando o costume era cruzar uma reta e em quinze minutos estar no lugar pretendido), é ainda muito bizarro, para mim, os contrastes – mendigos deitados ao redor de uma aclamada instituição do saber, que parece não saber da desigualdade que está do lado de fora. Mas nada parece fugir da normalidade para o carioca.

O único gesto de estranheza que percebi o dia todo, por parte deles, foi o da moça do caixa de uma papelaria que riu do excesso de “s” do meu sotaque. “também é esquisito o seu excesso de ‘x’”, falei baixinho.

Um Passado a ser Pensado

Pensar a História é também pensar a sua serventia. Quantas vezes nos deparamos com a seguinte questão: para que serve a História? A resposta todos tem, mas é difícil acharmos alguém que se arrisque a responder a pergunta mais clichê dos historiadores.

Certa vez buscando essa resposta eu encontrei um texto da professora Margareth Rago, no qual vinha uma conhecida frase de Michel Foucault, dizendo que a História teria como serventia libertar o sujeito de seu presente, mostrando-o que tudo o que foi não é mais e nem o que é continuará sendo. Uma boa resposta eu diria, porém, particularmente eu penso que a resposta seria um pouco mais complexa e talvez bem mais romântica. No século XVI a História teria outro uso: magistra vitae, era a expressão que adjetivava a função de trazer exemplos do passado para se usar no presente. Um exemplo a ser dado é o de Maquiavel, o autor d’O príncipe fazia uso do que ocorria ao seu redor para melhor formular o caminho através do qual o seu príncipe deveria seguir. Hoje sabemos, ou pensamos saber que a História não pode ser um manual de como se agir no presente, pois Marx no XIX dizia que a História se repetia como tragédia e depois como farsa, Foucault a título de ironia ia além, dizia que nem como farsa e nem como tragédia, e que qualquer historiador que buscasse tal repetição estaria fadado ao fracasso.

Há alguns dias atrás assistia a uma palestra na qual um historiador, não me lembro do nome, falava acerca da historiografia brasileira e caracterizava os autores que em suas obras colocavam o título de “formação”: Caio Prado Jr, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque, Celso Furtado e etc. tais autores escreveram obras que buscavam explicar o Brasil, segundo esse historiador que palestrava, era característica da escrita de tais intérpretes um engajamento político, não político em sentido partidário ou ideológico, mas político na forma, e sublinhou-o muito bem, a palavra forma. Esses autores escreveram obras com grandes recortes, coisa que hoje não é mais comum, a história se profissionalizou e se tornou “científica”, o dito “rigor” metodológico rompeu com qualquer vínculo que pudesse minimamente existir com o presente.

E hoje ainda nos perguntamos pra que serve a História, podemos dizer que pra nada, ou podemos cair na armadilha “positivista” de Hayden White e rebaixarmos a História a uma narrativa pura, e simplesmente sem um mínimo de concretude, mas que Historiador desenvolve sua pesquisa sem ao menos acreditar que o que ele escreve é de certa forma um resquício do passado? Eu, pelo menos advogo a veracidade das hipóteses que levanto. A verdade é que a História se tornou palco de disputas acadêmicas, não que isso seja totalmente negativo. Mas escrever só para os pares é um tanto quanto vazio.

No encontro regional da AMPUH (Associação dos Professores Universitários de História) deste ano vi um trabalho que achei ousado, mas muito interessante, o autor buscava continuidades nos discursos proferidos por deputados do Primeiro Reinado e parlamentares atuais, obviamente que não advogo uma História que se repete ou alguma espécie de magistra vitae, e nem o autor deste trabalho faria isso, mas acredito que a história pode servir ao presente, pode dialogar com o presente, para mostrar rupturas e continuidades. Talvez o caráter legitimador da história tenha sido esquecido, afinal de contas no Brasil, no que concerne a historiografia sempre os mesmos temas são vistos, e o que chega a sala de aula, é a reprodução de uma história em que Minas Gerais só aparece no XVIII, o norte do Brasil desaparece com o fim do ciclo do açúcar, o sul protagoniza os livros durante os farrapos. Rio e São Paulo aparecem o tempo todo, mas onde estão as regiões nos outros períodos? Talvez nessa questão encontremos a serventia da História: educar e mais que isso legitimar o vínculo de determinado sujeito a um lugar e quem sabe torna-lo minimamente agente de sua própria História.