“Ah sim. Se ele não puder lembrar, aquilo não aconteceu”. Esta frase compõe um dos diálogos do filme 36 Hours e remete a um dos elementos mais caros à História: a Memória.
Entendemos como memória “uma reconstrução do passado” (BURKE, Peter. “História como memória social”. In: Variedades de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. P.70). Tradicionalmente se concebia como papel do historiador ser guardião da memória que serviria de exemplo à posteridade.
Hoje em dia os historiadores estão menos inocentes, tomaram ciência que a memória é determinada socialmente, em outras palavras, são os grupos sociais que escolhem o que é digno de ser memorável…
De volta ao filme. 36 Hours de 1965, dirigido por George Seaton, conta a história do Major Jefferson F. Pike (James Garner), um oficial norte americano que é capturado pelos alemães. Na tentativa de se extrair informações sobre os planos das tropas estadunidenses, o oficial alemão Walter Garber (Rod Taylor) põe em prática um experimento que consiste (resumidamente) em sedar a vítima e acordá-la em um ambiente fictício em que a 2ª Guerra haveria acabado. Tratando a vítima como se estivesse com amnésia, como se tivesse esquecido os últimos seis anos de sua vida.
A suposta lacuna na memória do Major Jeff. F. Pike fez com que informações de guerra perdessem a importância, mas o que mais importa aqui é o artifício utilizado: a simulação do esquecimento…
Segundo Henry Rossuo o principal atributo da memória é “garantir a continuidade do tempo e permitir resistir à alteridade, ao ‘tempo que muda’, as rupturas que são o destino de toda vida humana, em suma, ela constitui – eis uma banalidade – um elemento essencial da identidade, da percepção de si e dos outros” (ROUSSO, Henry. “A memória não é maiso que era”. In: AMADO, Janaína & FERREIRA, Marieta. (Coords.). Usos e abusos de história oral. Rio de Janeiro: FGV,1998. P.94-95).
Assim como o ato de LEMBRAR, o ato de ESQUECER é um importante constituidor da memória. Retomando a fala do filme: esquecer é de certo modo tornar um acontecimento inexistente.
Ao historiador cabe, como aponta Peter Burke, se debruçar sobre dois pontos de observação da memória: estudá-la como fonte e como fenômeno histórico.
Por agora, tratemos do segundo ponto: toda memória é seletiva, o historiador deve observar os critérios de seleção, os grupos que selecionam e o que é selecionado. Sobretudo, o historiador deve estar atento à memória selecionada para ser esquecida.
Um exemplo (ou provocação): esquecer a violência da Escravidão, a ausência do povo na Proclamação da República e a participação de civis no Golpe Militar; serviria para quê? Digo, para quem?
No filme 36 Hours o que revela toda a farsa ao Major Jeff F. Pike é a dor de um pequeno corte com papel sofrido no dedo um dia antes de ser capturado. Um corte não cicatriza, não deixa de doer de um dia para o outro.
O historiador deve agir como a dor de um corte de papel: por mais que se diga que se passou séculos ou anos, na lenta marcha dos processos históricos a dor ainda persiste para nos lembrar que os ferimentos estão longe de se cicatrizarem. Não podemos esquecer…
*IMDB do Filme: http://www.imdb.com/title/tt0057809/